OPINIÃO Ano XVIII – Nº 99– Julho 2003
=====================================================================================
Em 22.07.1978, quando Maurice Herbert Jones presidia a Federação Espírita do Rio Grande do Sul, tendo como Diretor do Departamento Doutrinário Salomão Jacob Benchaya, lançava-se no Estado a Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita - ESDE. O movimento espírita iniciava ali uma nova e importante fase: a da conscientização da necessidade do estudo.
Enfrentando reações e após insistentes proposições de Jones, que representava a FERGS junto ao Conseho Federativo Nacional, cinco anos depois, a Campanha era, enfim, lançada nacionalmente pela FEB.
A antiga SELC, Sociedade Espírita Luz e Caridade, hoje Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, entidade à qual pertenciam (e pertencem) Jones e Benchaya, já há alguns anos mantinha grupos de estudos sistematizados. A prática não era comum no movimento espírita, que, no entanto, desenvolvia há anos uma campanha organizada na área da evangelização infantil. Com inspiração no COEM – Centro de Orientação e Estudo da Mediunidade – exitosa iniciativa do Centro Espírita Luz Eterna, de Curitiba, a SELC foi o laboratório onde se concebeu a Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, pioneiro lançamento da FERGS e, por iniciativa desta, mais tarde, lançada pela FEB em nível nacional.
Salomão Benchaya identifica numa mensagem do espírito Angel Aguarod a inspiração para o lançamento do ESDE. Em 26 de junho de 1978, Aguarod, imigrante espanhol que, quando encarnado, fora presidente da FERGS, ditou mensagem psicografada por Cecília Rocha, então Diretora do Depto. de Evangelização Infanto-Juvenil da Federação gaúcha. A mensagem, em certo ponto dizia: “Reiterando despretensiosa sugestão, recomendaríamos uma grande campanha, para usar nomenclatura moderna, em torno da importância do estudo das obras básicas da Doutrina Espírita”. Com efeito, em 28.04.76, a revista A Reencarnação da FERGS publicara anterior mensagem de Aguarod, onde o espírito já recomendava “o estudo de um plano amplo no sentido de esclarecer os mais responsáveis pela dinamização do movimento espírita, da importância do estudo, da interpretação e da vivência do Espiritismo”. Daí a expressão “reiterando despretensiosa sugestão”, na mensagem de 1978.
Benchaya, o executor. Salomão Benchaya coordenou equipe que preparou a
campanha.
Jones, o desbravador. A insistência de Maurice Herbert Jones, junto ao CFN da FERGS garantiu o lançamento da campanha em nível nacional.
Maurice Herbert Jones, que como presidente, representava a FERGS junto ao
Conselho Federativo Nacional da FEB, ainda quando aquela entidade tinha sede no
Rio de Janeiro e, depois, quando transferida para Brasília, por diversas vezes,
insistiu no sentido de que, a exemplo do Rio Grande do Sul, a FEB lançasse idêntica
campanha em âmbito nacional.. Relata, entretanto, que havia uma surda resistência
de parte da maioria dos Estados. Diante da insistência do representante gaúcho,
Francisco Thiesen, Presidente da
FEB, na reunião de 6 de julho de 1979, desafiou Jones a apresentar uma proposta
oficial de campanha. Um ano depois era levado um projeto concreto “a um Conselho nitidamente desinteressado pelo assunto”,
segundo observa Jones. Vários representantes de Federações sugeriram que se
adiasse a decisão para outro momento, o que forçou o representante da FERGS a
exigir do Presidente que colocasse a proposta em votação, “mesmo com o risco de vê-la
desaprovada”. Argumentou Jones, na oportunidade, que não podia entender
aquela surda resistência a uma Campanha de Estudo do Espiritismo em um
movimento que já desenvolvia uma intensa Campanha de Evangelização
Infanto-juvenil. Finalizou dizendo aguardar a votação, que era aberta, pois
apreciaria conhecer e registrar para a história, os dirigentes de Federações
Estaduais que se atrevessem a reprovar uma campanha objetivando estimular o
estudo do Espiritismo.
Foi nesse clima e sob essa estratégia que a proposta gaúcha
terminou aprovada pela unanimidade dos representantes presentes em Brasília
naquele domingo, 6 de julho de 1980. Só quatro anos mais tarde, em 27.11.83, a
campanha foi oficialmente lançada, com roteiros reelaborados pela FEB
que, segundo Jones, “os ajustou à sua peculiar visão de Espiritismo”.
Em Enfoque
da última página, Opinião
entrevista Salomão Jacob Benchaya e Maurice Herbert Jones, que se reportam a
esses acontecimentos de histórico significado para o movimento espírita
brasileiro.
Embora já se passem 25 anos, não é difícil identificar nas ações dos pioneiros introdutores da Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita o mesmo fio condutor que, hoje ainda, anima esse lento mas eficiente processo de transformação do movimento espírita.
Nos meios mais ajustados do espiritismo brasileiro, pode parecer estranho hoje pensar-se que uma campanha de estudo regular e sistemático da Doutrina só foi possível lançar-se quando já haviam decorrido 100 anos da existência de um movimento espírita organizado. Foi, coincidentemente, em 1983, mesmo ano do lançamento da Campanha, que a Federação Espírita Brasileira comemorou seu centenário. Não é exagero dizer-se, assim, que aquela campanha tão arduamente conquistada pela federativa gaúcha acabou por ser lançada com 100 anos de atraso, pois que esse deveria ter sido justamente o primeiro passo.
Todos sabemos, no entanto, que a difusão do espiritismo em terras brasileiras processou-se de forma inversa: não foi ele aceito aqui como uma ciência a ser estudada para dela se extrair, como o recomendara Kardec, sua rica filosofia de conseqüências morais. Tomou-se-o como uma religião em que se deveria crer, a partir daquilo que iam dizendo os espíritos. Daí se tomarem médiuns como sacerdotes, e guias espirituais como fontes preferenciais ou únicas de revelação, dispensando-se ou subestimando-se as obras básicas, repositório dos fundamentos científicos, filosóficos e morais do espiritismo.
Companheiros que vivenciaram a difícil fase de introdução do ESDE, tanto no Rio Grande do Sul, como, depois, no Brasil, testemunham a reação que a iniciativa despertou em dirigentes, médiuns e até em espíritos que viam nela a adoção de um perigoso elitismo a desfigurar o movimento.
Estarão superados esses tempos? Em parte, sim. Mas, apenas em parte. Se aquele avanço terminou por pegar desprevenidos os mais reacionários, que o aceitaram a contragosto, estes mesmos logo trataram de se organizar para coibir outros avanços. Todos conhecem o processo de expurgo imposto àquelas mesmas lideranças responsáveis por esse e outros avanços conceptuais e metodológicos no âmbito do movimento espírita chamado “oficial”. Mesmo assim, eles continuam aí, integrando um pujante movimento de idéias. Impedidos do intercâmbio formal e regular com outros companheiros de ideal, eles não vacilam em, perifericamente, levar sua contribuição de nítido sentido progressista que, por vias oblíquas, termina por influenciar o movimento como um todo, o qual, aliás, definitivamente, já não é mais o mesmo. Como no processo de introdução do ESDE, o adágio popular sempre acaba por se confirmar: água mole em pedra dura tanto bate até que fura. (A Redação).
Ousar é tropeçar momentaneamente, não ousar é se perder - Sören Kierkegaard -
A muitos espíritas incomoda o fato de existirem divergências doutrinárias dentro do movimento. Sonham com um espiritismo totalmente liberto de disparidades interpretativas. Desejam unidade absoluta acerca de todas as questões doutrinárias. Que todos pensem e ajam exatamente igual no movimento. Imaginam, talvez, a possibilidade de um instância superior, supra humana, capaz de aplainar todas as divergências e ditar a última palavra em cada conflito de interpretação.
De uma certa forma, o movimento espírita brasileiro foi concebido em cima dessa utopia. Daí a idéia da unificação, sempre buscada, mas dificilmente atingível. Esbarra na heterogeneidade natural entre grupos e pessoas, mesmo que convictas dos princípios comuns relativos aos chamados postulados básicos do espiritismo: Deus, imortalidade, comunicabilidade, reencarnação, pluralidade de mundos habitados. É que a adoção de convicções a respeito desses temas não extirpa o caráter livre-pensador do homem. Bem pelo contrário, estimula-o a novas buscas e a diferentes conclusões a respeito das mais diferentes instâncias do pensamento, nos amplos círculos de compreensão sobre Deus, o universo e, especialmente, o homem.
Na verdade, quanto mais estudamos mais críticos nos tornamos e mais dificilmente assumiremos como definitivas as interpretações que, ainda ontem, nos pareciam diafanamente claras. É certo que, relativamente a nossos postulados básicos, as pesquisas e os estudos só tendem a confirmá-los. Não assim, entretanto, relativamente a todas as opiniões que simplesmente assimilamos em torno desses mesmos postulados, transmitidas que nos foram por outros, encarnados ou desencarnados. O conhecimento exige um mergulho pessoal do ser cognoscente no objeto a ser conhecido. Não dá para dispensar a experiência pessoal que nos confere diferentes graus de percepção a respeito de conceitos, fatos e fenômenos com cuja existência fundamental todos estamos concordes.
Por isso, as divergências são saudáveis. Na mesma medida em que o estudo do espiritismo nos une no essencial, estimulando o fortalecimento do laço que nos prende uns aos outros, ele também instaura o pluralismo de idéias só existente naqueles grupos que privilegiam o debate livre e democrático, sabendo que a verdade absoluta está muito distante do estágio em que nos encontramos.
Quando se celebram os 25 anos de um acontecimento marcante no movimento espírita brasileiro, que foi o lançamento da Campanha de Estudo Sistematizado do Espiritismo no Rio Grande do Sul, a partir de idéia gerada na instituição de que este periódico é porta-voz, é imperioso admitir que sua introdução possibilitou o despertamento desse espírito crítico. E será conveniente a presença de espírito crítico num movimento como o espiritismo? Muitos ainda acham que não. Nós do CCEPA seguimos achando que vale a pena. Os riscos daí decorrentes são inerentes ao progresso.
Na mesma medida em que o estudo do espiritismo nos une no essencial, também instaura o pluralismo de idéias.
A Comunidade Espiritualista Virtual Espirit Net, site da Internet que veicula as edições eletrônicas de Opinião e América Espírita, está realizando o Primeiro Leilão de Pinturas Mediúnicas.
O objetivo é
angariar fundos para a manutenção do site. Aqueles que desejam
ajudar podem acessar http://www.espiritnet.com.br
e clicar no banner do Leilão.
A conferência pública mensal do CCEPA, sempre na primeira segunda-feira de cada mês, está, neste 7 de julho, a cargo do Diretor do Departamento de Estudos da Mediunidade, Carlos Alberto Grossini. Seu tema: “O que nos dizem os Espíritos?”
Convidado pelo jornal Diário Gaúcho, o editor de Opinião e presidente da Confederação Espírita Pan-Americana, Milton Medran Moreira, mantém uma coluna semanal naquele periódico. A crônica de Medran sai às terças-feiras. O Diário Gaúcho, jornal da RBS do segmento popular, é o periódico de maior circulação na Grande Porto Alegre, atingindo cerca de 1 milhão de leitores. A mensagem espírita é, ali divulgada em linguagem leve e clara, compatível com o amplo segmento a que o jornal é destinado.
Crônica
em estilo leve, com motivação espírita, às terças-feiras no Diário Gaúcho
Milton R. Medran Moreira
Guerra e Paz
Quando, adolescente ainda, vim morar em Porto Alegre, sempre que passava de bonde, rumo ao colégio em que estudava, pela antiga Praça do Portão, chamava-me a atenção uma frase em latim, inscrita no pórtico de velho quartel ali existente: “si vis pacem, para bellum” (se queres a paz, prepara a guerra). A sonora sentença latina ainda hoje povoa minhas lembranças daquele tempo, juntamente com os anúncios populares do interior dos bondes, onde sobressaía este: “Veja ilustre passageiro/O belo tipo faceiro/Que o senhor tem ao seu lado/ E, no entanto, acredite/Quase morreu de bronquite/Salvou-o o Rum Creosotado”.
Nunca cheguei a experimentar o Rum Creosotado do reclame. Mas, a frase do pórtico do quartel, já naquele tempo, me fazia pensar e muito: será mesmo, questionava, que o único jeito de se ter paz é vivendo em contínua preparação para a guerra? Quartéis e soldados treinando para a guerra serão mesmo necessários como instituições permanentes de uma sociedade civilizada? Ou será isso a própria negação da civilização?
Pretextos
Vivia-se o tempo da guerra fria, onde todo o conflito internacional tinha uma justificativa: era preciso acabar com o comunismo. Hoje, que os regimes marxistas já foram praticamente varridos do globo e, no entanto, as guerras continuam, o pretexto é outro: é preciso acabar com o terrorismo. Mas os últimos acontecimentos mundiais já não podem esconder a verdadeira motivação das guerras: o insaciável desejo de expansionismo de uma grande potência e de seu modelo econômico globalizante. Nesse quadro, pouco a pouco, a paz vem se tornando uma utopia. Uma imensa utopia que mais inatingível se faz quanto mais avança o capitalismo, tal como este tem sido praticado no mundo. A escritora e psicanalista Betty Milan, em artigo publicado na Folha de São Paulo (22/6/03), chama a atenção de que a guerra tem sido a principal atividade dos Estados nacionais nos últimos 500 anos “por ser inerente ao capitalismo, indissociável do jogo de trocas”.
Caminhos da Paz
Para os romanos, aqueles que diziam ser necessário preparar a guerra para a obtenção da paz, o grande projeto era acabar com os “bárbaros”. Estes, ao final, invadindo o Império, terminaram por decretar o fim da grande potência que reinou soberana por tantos séculos. Hoje, a ameaça que paira sobre o mundo ocidental e, especificamente, sobre as nações que o lideram, é o terrorismo. A cada ação bélica desfechada com o pretexto de se combater o terrorismo, este parece ganhar mais força. A História está querendo demonstrar o óbvio: que violência só pode gerar violência. E que iniciativas de paz para serem eficientes extrapolam meros acordos formais entre nações. Grupos terroristas atuam à margem dessa liturgia e, inevitavelmente, responderão a todo o movimento bélico que se fizer com o fim de preservar o “status quo” existente. O grande desafio do mundo contemporâneo é no sentido de as grandes potências se darem conta de que a paz está a depender exclusivamente delas. Que quem mantém o poder, a supremacia e a força, assim como pode impor o estado de guerra, tem capacidade de transformar o mundo num imenso território de paz. Agora, para isso, são necessárias humildade e solidariedade, valores de que a humanidade, em todos os seus níveis de relacionamento, ainda está muito carente.
A escalada da guerra
No artigo referido, a escritora evoca a escalada do espírito da guerra na Modernidade. No período entre 1480 e 1800, houve uma guerra em cada dois ou três anos. De 1800 a 1940, houve uma a cada um ou dois anos e, depois de 1945, uma a cada 14 meses. “Dados alarmantes” – acrescenta Betty Milan – “porém menos dos que os relativos ao número de mortos por causa da guerra nos três últimos séculos: 4 milhões no século 18; 8 milhões no século 19; e 115 milhões no último século”.
No lugar onde, na minha adolescência, existia um quartel fazendo apologia ao permanente treinamento para a guerra, há, hoje, um moderno viaduto. A metáfora sugere que estão em construção no mundo novas vias para a paz. Acho que estamos chegando à saturação desse processo. Não sei se, de fato, paz e capitalismo são incompatíveis. Sei, no entanto, que paz e egoísmo não se conciliam jamais. Paz e orgulho também não. Os dois vícios que Kardec e os espíritos apontaram como matrizes de todos os males humanos são também geradores das guerras. Na medida em que os formos debelando, talvez consigamos inverter a sentença latina para os poderosos do mundo: “si vis pacem, para pacem”.
Entrevistas com Salomão Jacob Benchaya e Maurice Herbert Jones
evocando os 25 anos de lançamento da Campanha de Estudo Sistematizado da
Doutrina Espírita no RGS.
SALOMÃO: Houve, por parte de muitos dirigentes e até de médiuns de
renome, sérias reservas quanto ao estudo doutrinário sob a alegação de que
isso levaria à eletização do espiritismo".
Opinião -
Como surgiu a idéia de uma campanha de estudo metódico do Espiritismo?
Salomão - Logo que o Jones assumiu a presidência da FERGS, em 1978, já conversávamos sobre o vazio existente no movimento espírita com relação ao estudo doutrinário. Há alguns anos, a SELC-Sociedade Espírita Luz e Caridade (hoje CCEPA-Centro Cultural Espírita de Porto Alegre), instituição à qual ambos pertencemos, mantinha grupos de estudo sistemático do Espiritismo cuja programação se inspirara no COEM, uma exitosa experiência patrocinada pelo Centro Espírita “Luz Eterna”, de Curitiba-PR.
Opinião - E na FERGS, como se deu
o lançamento da Campanha?
Salomão - Em
26.06.78, o espírito Angel Aguarod manifestando-se, pela psicografia de Cecília
Rocha, então Diretora do Departamento de Evangelização Infanto-Juvenil da
FERGS, afirmou, em determinado trecho: “Reiterando
despretensiosa sugestão, recomendaríamos uma grande campanha, para usar
nomenclatura moderna, em torno da importância
do estudo das obras básicas da Doutrina Espírita”. Nos comentários
que se seguiram à comunicação, lembro-me de haver dado a sugestão,
prontamente aceita, de se adotar metodologia semelhante à empregada na então
chamada “evangelização infantil” e que consistia na elaboração de Planos
de Aula pela Federação, remetidos pelo correio às sociedades federadas e, até
mesmo para outros Estados. Assumi o compromisso de esboçar um plano a ser
apresentado ao Conselho Executivo. Não havia dado importância à expressão “reiterando
despretensiosa sugestão”, de Aguarod, até que, dias depois, folheando
exemplares antigos da revista “A
Reencarnação” (agosto/76), da FERGS, deparei-me com a mensagem
“Integridade Doutrinária”, do mesmo espírito, recebida em 28.04.76. Alí,
efetivamente, já havia a recomendação explicita de Aguarod para “o estudo de um plano amplo no sentido de esclarecer os mais responsáveis
pela dinamização do movimento espírita,
da importância do estudo, da interpretação e da vivência do Espiritismo.”
Opinião
- E que Plano foi esse?
Salomão - A FERGS possuía um documento orientador denominado “Normas para os Trabalhos do Departamento de Assistência Espiritual da Sociedade Federada”- anos mais tarde substituído pelo “Orientação ao Centro Espírita”, do CFN-FEB -, contendo um capítulo dedicado à “Sessão de Estudo da Doutrina”, que pouquíssimas casas promoviam. Quando muito, os Centros Espíritas mantinham sessões públicas doutrinárias. Aproveitando as idéias ali contidas, com a equipe que me assessorou, elaboramos um plano envolvendo a montagem de programas de estudo, confecção de roteiros a serem enviados às Casas, treinamento de dirigentes (coordenadores) e estratégias de informação e sensibilização das lideranças espíritas, propaganda, etc. Esse plano, apreciado e aprovado pelo Conselho Executivo, foi apresentado ao Conselho Deliberativo Estadual da FERGS, em 22.07.78 que oficializou o lançamento da Campanha no Estado do Rio Grande do Sul.
Opinião - E quais foram as reações
do movimento espírita?
Salomão - A
maior dificuldade encontrada foi o despreparo, de um modo geral, de
coordenadores de grupos de estudo. O movimento é fortemente calcado num
modelo de “pregação” e de “doutrinação” onde há
pregador/expositor e assistente/ouvinte, num processo comunicacional de mão
única. Isso obstaculiza a utilização de técnicas participativas em que o
coordenador/dirigente do estudo não é o “dono da verdade” e a contribuição
dos membros do grupo é valorizada. Mesmo assim, foi inegável o sucesso da
Campanha com a ampla adesão das casas espíritas. Também houve, por parte de muitos dirigentes e até de médiuns de renome,
sérias reservas quanto ao estudo doutrinário sob a alegação de que isso
levaria à elitização do espiritismo ou estimularia a vaidade entre
os trabalhadores, etc.
JONES:
"Vários representantes de Federações sugeriram se adiasse a decisão
para voutro momento, o que nos forçou a exigir do Presidente que colocasse a
proposta do Rio Grande do Sul em votação".
Opinião - A FEB estará
comemorando, em novembro/2003, os
20 anos da Campanha de Estudo Sistematizado. O que aconteceu nesses cinco anos
decorridos entre 1978 e 1983?
Jones -
Desde nossas primeiras participações como Presidente da FERGS no
Conselho Federativo Nacional, primeiro no Rio de Janeiro e depois em Brasília,
insistíamos em anunciar nosso entusiasmo pelo progresso e pelos resultados da
Campanha no nosso Estado. Como a
repercussão era pequena junto aos companheiros do Conselho, o então Presidente
da FEB, Francisco Thiesen nos desafiou, na reunião de 6/7/79, a apresentar uma
proposta oficial, em nome da FERGS,
para uma campanha em nível nacional patrocinada pela FEB. Exatamente um
ano depois, apresentávamos em Brasília nossa proposta a um Conselho
nitidamente desinteressado pelo assunto. Vários representantes de Federações
sugeriram que se adiasse a decisão para outro momento, o que nos forçou a
exigir do Presidente que colocasse a proposta do Rio Grande do Sul em votação,
mesmo com o risco de vê-la desaprovada. Declaramos que não podíamos entender
aquela surda resistência a uma Campanha de Estudo do Espiritismo em um
movimento que já desenvolvia intensa Campanha de Evangelização
Infanto-juvenil. Finalizamos dizendo que aguardávamos a votação, que era
aberta, pois apreciaríamos conhecer e registrar para a história, os dirigentes
de Federações Estaduais que se atrevessem a reprovar uma campanha objetivando
estimular o estudo do Espiritismo.
A
proposta gaúcha foi aprovada pela unanimidade dos representantes presentes em
Brasília naquele domingo, 6 de julho de 1980.
Opinião - Houve alguma
dificuldade no lançamento da campanha pela FEB?
Jones - Certamente. Basta notar que, com todos os recursos de que dispunha, somente quatro anos depois da aprovação pelo CFN é que a Campanha foi oficialmente lançada. É verdade que os programas e roteiros gaúchos foram reelaborados pela FEB que os ajustou a sua peculiar visão de Espiritismo. Mesmo assim, a exagerada demora sugere que, pelo menos no início, a FEB não estava muito interessada no assunto.
Era domingo, 27 de novembro de 1983 e o lançamento festivo da Campanha com roteiros, cartazes e, ainda o aval mediúnico de Francisco Spinelli e Bezerra de Menezes nos deixou naturalmente felizes com o desfecho do trabalho que, com outros companheiros, havíamos iniciado 8 anos atrás na pequenina Sociedade Espírita Luz e Caridade em Porto Alegre.
Opinião - Na sua opinião,
que influência o ESDE exerceu no
movimento espírita?
Jones - No geral, muito positiva. Kardec era somente um nome. Com o ESDE começou a ser uma idéia. A semelhança do que acontecera no RGS pela ação intensa da FERGS, o programa se popularizou no Brasil revelando um pouco mais de Kardec e da mundividência espírita aos colaboradores das instituições espíritas. Os confrontos ideológicos que ventilam e agitam positivamente o espiritismo brasileiro nos últimos 25 anos são devidos, em grande parte, ao aumento de conhecimento doutrinário de um número cada vez maior de estudantes de Espiritismo.
Tudo isto é muito bom, mas é preciso avançar. Todos nós sabemos que o problema central do ESDE é a falta de capacitação da maioria dos chamados coordenadores de grupos de estudo. Sem formação pedagógica e com escasso conhecimento doutrinário tendem a reproduzir modelos incompatíveis com a natureza intrinsecamente dinâmica e reflexiva do Espiritismo.
A sacralização de Kardec e dos chamados espíritos superiores, por exemplo, resulta numa cansativa repetição das “sagradas verdades” que bloqueia a reflexão crítica. A conseqüência disto é o engessamento, a cristalização do pensamento espírita autêntico que só pode existir nos espaços abertos e arejados.
Como se vê, mais do que simplesmente estudar, é preciso pensar o Espiritismo.
Assistência
Social e Espiritismo
Acabo
de receber o Opinião de junho. Observei que seu editor tem aproveitado muito
bem os temas discutidos na lista da CEPA na Internet (cepa@grupos.com.br),
o que me pareceu ótimo. Gostei muito da coluna de Milton Medran Moreira
“Opinião em Tópicos”, tratando sobre
assistência social espírita. Ela sintetiza tudo o que sempre defendi.
Néventon
Vargas -
neventon@openline.com.br
– João Pessoa, PB.
Entrevista com presidente da CEPA
Acabo de ler, de um só fôlego, a entrevista do presidente
da CEPA, no boletim América Espírita, em sua edição eletrônica veiculada no
site da Espiritnet. Palavras e posições como as suas reforçam-me a certeza de
que a Doutrina dos Espíritos caminha por posições mais sólidas nesta terra
do Cruzeiro, apesar da tentativa de tantos clérigos católicos, renascidos,
ousando intervir nessa solidificação e tentando impingir a doutrina dos “espíritas”.
Esse quadro todo me revela as mesas cenas de dois mil anos atrás em que o
Mestre de Amor e Bondade foi crucificado pelos defensores de pretensas
“purezas doutrinárias” nos meios farisaicos. Acho que já chega de repetir
os mesmos erros. Exulto e me felicito por ler essa entrevista. Vá em frente e
receba minha simples e pequenina vibração de simpatia.
Newton_Gimenez
- negig@ig.com.br
– São Paulo, SP.