OPINIÃO  Ano XVIII – Nº 96– Abril 2003

 

Pluralismo e alteridade: os novos desafios internos do espiritismo

Nossa Opinião:   Parados no tempo?

Editorial:  Em paz

 Notícias:   Moacir Araújo Lima no CCEPA    Simpósios Espíritas na OAB, CRM e na USP   SEDiC participa da feira do livro de Sta. Maria 

Opinião em Tópicos:   Clima de guerra   Porto Rico    Compaixão    Opinião pública   (Milton Medran Moreira) 

Enfoque: Ainda a Teologia Espírita   (Jaci Regis)

Opinião do Leitor: Chico Xavier, correntes e simpatias (Amilcar Del Chiaro Filho)   Ante a guerra (Gezsler Carlos WEst

 

 

PLURALISMO E ALTERIDADE: OS NOVOS DESAFIOS INTERNOS DO ESPIRITISMO

Os primeiros anos do Século XXI, diferentemente da tendência unificacionista do Século XX, traz ao movimento espírita brasileiro o debate sobre a alteridade e a pluralidade de modelos organizacionais e interpretativos.

 

            Espíritas que freqüentam algumas listas de discussão na Internet, como as da ABRADE (Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo), do IPEPE (Instituto de Pesquisas...) ou da CEPA (Confederação Espírita Pan-Americana), já estão familiarizados com expressões como “alteridade”, “pluralismo”, “livre-pensamento”, etc. São termos pouco ou nunca utilizados pela comunidade espírita do século passado, envolvida, preferentemente, com a idéia da “unificação”, que pressupunha um modelo único, piramidal, com interpretações doutrinárias rígidas, originadas praticamente de uma mesma fonte mediúnica.

           

            Respeito na diversidade

            A ABRADE, uma das referências mais fortes dessa nova tendência, vem desenvolvendo o que denominou de Movimento Alteridade na Seara Espírita. Segundo documento recentemente divulgado por seu Presidente, o pernambucano Gezsler Carlos West, “esse movimento não tem donos, é plural e aberto, contando com todas as pessoas que valorizam o diálogo, a alteridade e acreditam que o respeito na diversidade é uma das bases da verdadeira união”. Os valores buscados pelo Movimento Alteridade na Seara Espírita são: disposição para aceitar e aprender com os que são e pensam diferente; Construir a fraternidade, apesar das divergências, respeitando-as e procurando aprender com as diferentes opiniões; Com relação aos meios espíritas, admitir e conviver, pacífica, respeitosa e fraternalmente com a diversidade de opiniões e enfoques, lembrado o espírito Bezerra de Menezes, segundo quem a diversidade é uma realidade irremovível da seara”. 

Gezsler Carlos West, presidente da ABRADE, lançou o Movimento de Alteridade na Seara Espírita.

 

            A palavra dos espíritos

            O movimento em favor do pluralismo e da alteridade no movimento espírita encontrou respaldo mediúnico no livro “Seara Bendita”, psicografado por Maria José C.Soares de Oliveira e Wanderley Soares de Oliveira, lançado em Belo Horizonte, MG., pelo INEDE – Instituto Espírita de Estudo e Divulgação do Evangelho. Na obra, importantes vultos do movimento espírita brasileiro, hoje na espiritualidade, manifestam-se candentemente em favor da idéia.

            Assim, Armando de Oliveira Assis, que foi presidente da FEB, (1970/75), deixou consignado em uma mensagem: “A convivência pacífica e autêntica ante as diferenças é o grande móvel subliminar da verdadeira união entre os espíritas”, acrescentando: “Sem conveniências e sem desonra, analisemos semelhante fato, a fim de constatarmos que ainda não nos respeitamos tanto quanto devíamos; que ainda não entendemos que unificação não é homogeneidade; que ainda não vivemos entre nós a ética da alteridade.”.

            O mesmo Oliveira Assis (espírito), em mensagem conjunta com o espírito Cícero Pereira, que foi Presidente da União Espírita Mineira (1937/40), se declarou “em campanha pela ética do amor que concretizará o ecumenismo da fraternidade, no qual haja unidade afetiva com diversidade interpretativa, realizando o encontro solidário entre diferenças e  diferentes no fortalecimento da causa espírita”.

            Francisco Thiesen (espírito), também um ex-Presidente da FEB (1975/90), na mesma obra, declara enfaticamente que “não há unificação sem união entre os espíritas” e que “o movimento de unificação é um caminho pródigo e promissor, entretanto, em um mesmo caminho há muitas vias alternativas e todas conduzem ao mesmo destino”.

            Em outra obra, “Laços de Afeto”, pelos mesmos médiuns, Ermance Dufaux, que, contemporânea de Kardec, com ele colaborou nos trabalhos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, convoca os espíritas de hoje a instaurar “a era do ecumenismo do afeto, cuja base é a fraternidade sentida e vivida, mesmo quando haja o entrechoque necessário e construtivo das idéias, garantindo que, sob a égide do respeito com as diferenças uns dos outros, nossas relações palmilharão cada vez mais pelas veredas dos melhores sentimentos de aliança, soma, coesão e irmandade.”

 

            Uma experiência concreta e suas resistências

            Quando nascia o Século XXI, uma iniciativa concreta de diálogo e atividade conjunta das diversas vertentes do pensamento espírita brasileiro foi implementada pela USE – União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Em janeiro de 2001, realizou-se no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo, o I ENCOESP – reunindo as principais lideranças institucionais espíritas com representações naquele Estado.

            Entidades espíritas de perfis diferentes como FEB, CEPA, Federativas Estaduais, Aliança Evangélica Espírita, Associação Médico-Espírita, Sinagoga Espírita Nova Jerusalém, e dezenas de outras, se fizeram representar. Entretanto, outras entidades, de perfil mais conservador, além de não se fazerem presentes, criticaram o evento, vendo nele perigosa iniciativa a estimular “desvios doutrinários”. Destacou-se nessa posição, a Federação Espírita do Paraná, que, em editorial intitulado “Porque Não Fomos”, em seu órgão oficial “Mundo Espírita” fez severa crítica à Federação Espírita Brasileira que, ali comparecendo, estaria se inclinando para uma política de “unificação com indulgência”, na medida em que buscava unificar “variados e divergentes sistemas e práticas não espíritas”. O editorial condenava a atitude da FEB especificamente porque esta “ao dar as mãos à CEPA, no I ENCOESP, tumultuou e desautorizou as ações visando impedir o avanço do denominado espiritismo laico”. A FEP referia como parceira dessa sua posição a Federação Espírita do Rio Grande do Sul. As resistências manifestadas nesses setores do movimento espírita  terminaram por fazer com que a USE, que pretendia realizar outros ENCOESPs, abandonasse o projeto.      

 

 

Nossa Opinião

PARADOS NO TEMPO?

            Apesar das resistências, o movimento em prol da alteridade e do pluralismo avançam no seio do espiritismo brasileiro. Diferentemente daquilo que pensam seus opositores, sua prática tem estimulado o avanço das idéias espíritas, escoimando-as de influências mais distanciadas da proposta kardequiana e qualificando o movimento.

            O movimento de unificação prestou um relevante serviço à causa espírita no Brasil. Mesmo que com uma política de alguma complacência a arraigadas idiossincrasias místico-religiosas do povo desta terra, souberam seus mentores, com relativa competência, definir os contornos dentro dos quais se pode situar o espiritismo. Se, por algum tempo, reinou confusão maior em torno da identidade espírita em relação a outros movimentos mediúnicos, hoje estes próprios movimentos não-espíritas trabalham em prol de sua identidade própria, deixando, pouco a pouco, de postular a identificação de espírita.

            Reduz-se, assim – e reduzindo-se se fortalece e se faz mais preciso – o universo conceitual espírita que, não obstante, sob os mesmos alicerces filosóficos, comporta pluralidade de interpretações acerca de si mesmo e de aspectos da dinâmica realidade do homem e dos mundos, respeitados os limites que a fase anterior de sua história soube demarcar.

            O ingresso da CEPA no Brasil, justamente nesta fase, teve o condão de trazer para cá algumas reflexões acerca da identidade fundamental do espiritismo até então rejeitadas pelo movimento oficial e que só eram feitas na sua periferia. Essas mesmas reflexões, processadas em clima de maior liberdade em outros países latino-americanos, haviam conduzido a diferenças interpretativas. Interpretações que, diga-se de passagem, não discrepam da base kardequiana e nem se chocam com os postulados fundamentais universalmente aceitos pelo espiritismo. Concomitantemente, instituições progressistas, como a ABRADE, o IPEPE e outras, dispuseram-se a uma ação de aproximação das diversas correntes, sem, necessariamente, aderir oficialmente a qualquer uma delas. O processo dialético, tese/antítese/síntese, parece, assim, estar querendo completar um ciclo.

            Vivemos um momento riquíssimo. Só não o percebem aqueles – sempre os há em todos os movimentos – que preferem parar no tempo, obstaculizando a marcha do progresso e, pior, atentando contra um dos mais genuínos objetivos do espiritismo: a construção da tolerância e da afetividade. (A Redação).

Apesar do desespero que emana do vazio de tantas vidas, ele pode continuar tecendo a esperança que plenifica a existência.

 

Leia ainda nesta edição:

-         A guerra é apenas um provisório desvio da rota do homem. O editorial da pg.2 ratifica a fé que o espiritismo tem nos destinos superiores do homem.

-         “O maravilhoso de nosso tempo é que se criou uma potente rede pela paz que pode fazer um contraponto eficiente à lógica da guerra”. Nosso editor, Milton R. Medran Moreira, que transitou pelos Estados Unidos, em recente visita a Porto Rico, comenta o clima de guerra e de violência em diversas partes do mundo.

-         “A intenção de criar uma teologia espírita  soa como um epitáfio do pensamento kardecista”. A opinião é do escritor Jaci Regis, no Enfoque da última página, onde também poderão ser lidas duas cartas: de Amilcar Del Chiaro Filho, sobre as “simpatias” de Chico Xavier que inundam a Internet, e do Presidente da ABRADE, destacando as posições pacifistas do espiritismo, quando mais uma guerra se abate sobre o mundo.

-         E no boletim América Espírita, encartado nesta edição: as repercussões das visitas de Milton Medran Moreira e de Jon Aizpúrua a Porto Rico. Leia também uma vigorosa opinião sobre os chamados “movimentos paralelos” no espiritismo, emitida em entrevista com o Delegado da CEPA em Florianópolis, Marcelo Henrique Pereira. Cynthya Michelin fala sobre a Lista de Discussão da CEPA, que coordena na Internet.

-         VOCÊ PODE LER A EDIÇÃO ELETRÔNICA DE OPINIÃO E AMÉRICA ESPÍRITA PELO SITE www.espiritnet.com.br

Editorial

EM PAZ

 “Qualquer guerra, a mais benigna, com todas suas conseqüências ordinárias, a destruição das massas, os furtos, os raptos, a desonestidade, o homicídio, com as justificativas de sua necessidade e de suas legitimidade, com a exaltação dos comportamentos militares, o amor à bandeira, à pátria, com a falsa solicitude para com os feridos, etc., perverte, num só ano, mais gente do que milhares de assaltos, incêndios e homicídios cometidos durante um século por indivíduos isolados, impelidos pela paixão” (Leon Tolstoi, em “O Reino de Deus Está Dentro de Vós”).

 

            O mais extraordinário  no homem é que, apesar do ruído que se faz em volta, ele pode cultivar o silêncio que harmoniza.

            Apesar do ódio que destrói, ele pode ofertar o  diálogo e o perdão que recompõem.

            Apesar da descrença que estimula a barbárie, ele pode manter a fé que sustenta a civilidade.

            Apesar da violência que move as relações entre povos e indivíduos, ele pode prosseguir semeando a tolerância da qual resulta a coexistência fraterna com o diferente.

            Apesar da guerra, ele pode fazer a paz!

            O mais extraordinário do homem é que, mesmo indelevelmente ligado a tudo o que o rodeia, e com o qual está radicalmente comprometido, ele pode ser um universo à parte a valorizar em si e a despertar nos outros aquilo que é a própria essência de cada criatura, fonte, origem e destino de tudo e de todos: o amor. A guerra é apenas um provisório desvio de rota. Não é da essência do homem, nem de seu destino ou natureza e, muito menos, o caminho que possa  levar à prosperidade e à felicidade. Mesmo que se faça a guerra sob o argumento de que se quer a paz, não sucumbamos ante essa falácia e vivamos sob a convicção plena de que cultivando intimamente a paz, contribuiremos eficazmente a que um dia ela reine também sobre tudo aquilo que está em nosso derredor.

 

 A guerra é apenas um provisório desvio de rota. Não é da essência do homem, nem de seu destino ou natureza.

 

Notícias

 

MOACIR ARAÚJO LIMA NO CCEPA

            Seguindo com sua programação que prevê uma conferência especial mensal, na primeira segunda-feira de cada mês, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, CCEPA, apresenta, neste dia 7 de abril, o conhecido orador, físico e jurista gaúcho, Moacir Costa de Araújo Lima, que aborda o tema “Provas Científicas da Reencarnação”.

            As conferências, com início às 20h30min. são realizadas no auditório do CCEPA, à Rua Botafogo, 678, bairro Menino Deus, Porto Alegre e o ingresso e inteiramente franco.

            Nas demais segundas-feiras do mês, o CCEPA realiza atividades com o Grupo de Conversação Espírita, também aberto ao público, onde, em caráter informal, são discutidos temas da atualidade, num enfoque espírita, também a partir das 20hs30min.

 

O Prof.Moacir Lima é o conferencista do CCEPA, neste mês de abril.

 

SIMPÓSIOS ESPÍRITAS NA OAB, CRM E NA USP

            A União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE-SP) em conjunto com a União dos Delegados Espíritas do Estado de São Paulo (UDESP), a Associação Brasileira dos Psicólogos Espíritas(ABRAPE) e Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP), além de outros profissionais do Direito espíritas, programaram um simpósio para os profissionais das áreas de Direito, da Medicina e da Psicologia, simultaneamente, no dia 31 de maio de 2003, com a finalidade de recolher propostas concretas para serem encaminhadas às instituições civis, governamentais ou particulares, visando aperfeiçoar o trabalho dos referidos profissionais junto à sociedade.

            Assim, o Simpósio com os profissionais do Direito será realizado na Ordem dos Advogados do Brasil, secção de São Paulo (OAB/SP), o dos Médicos no Conselho Regional de Medicina (CRM), região de São Paulo e também no Instituto Oscar Freire, da Universidade de São Paulo (USP) e para o dos Psicólogos a ABRAPE solicitou o auditório do Conselho Regional de Psicologia(CRP), região de São Paulo, não havendo ainda recebido resposta.

            O Simpósio da OAB consistirá de duas fases: 1ª fase – recebimento de propostas escritas, para análise, até o dia 30 de abril de 2003 e 2ª fase – o simpósio propriamente dito, no dia 31 de maio de 2003, quando haverá a apresentação, discussão das propostas aprovadas e redação de documento final para encaminhamento às autoridades competentes, para sua implantação.

Na OAB com Profissionais do Direito

            A União dos Delegados Espíritas do Estado de São Paulo (UDESP) e diversos outros profissionais do Direito, em conjunto com a USE-SP, realizarão no dia 31 de maio de 2003, das 9 às 17 horas, no Salão Nobre da OAB/SP, na Praça da Sé, 355, 1º andar, São Paulo – SP, o 1º Simpósio de Profissionais do Direito Espíritas, com a participação de advogados, magistrados, delegados de polícia, membros do MP, procuradores do Estado e Bacharéis de Direito.

            As propostas escritas deverão ser enviadas, para análise, até o dia 30 de abril de 2003, para a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo – USE-SP, na Rua Dr. Gabriel Piza, 433 – Santana – CEP 02036-010, São Paulo - SP, aos cuidados da Dra. Julia Nezu Oliveira – E-mail: julianezu@terra.com.br ; 2ª fase – o simpósio propriamente dito será no dia 31 de maio de 2003, das 9 às 17 horas, no salão Nobre da OAB/SP.

 

No CRM e na USP com Profissionais da Medicina

            A Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP promove seu simpósio no dia 31 de maio de 2003, em dois locais, com o tema "Medicina e Espiritualidade – Perspectivas da Ciência Oficial e Revisão da Literatura Científica Indexada": no Instituto Oscar Freire, da Universidade São Paulo (USP), localizado no complexo do Hospital das Clínicas, na Rua Teodoro Sampaio, 115, em São Paulo – SP, das 9 às 12 horas; e no auditório do Conselho Regional de Medicina (CRM), na Rua Domingo de Morais, 1810 – Vila Mariana, São Paulo – SP, das 15 às 18 horas, com vistas a participação dos profissionais da Medicina, que encaminharão propostas para serem apresentadas antecipadamente à AME-SP, para posterior encaminhamento aos órgãos competentes por meio dessa.

            Esclarece o Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, Presidente da AME-SP e coordenador dos Simpósios da área médica que o evento do Instituto Oscar Freire será destinado aos médicos, alunos e profissionais da área de saúde do Hospital das Clínicas e cientistas da USP. Já o do CRM será aberto aos médicos, profissionais da área de saúde, assistentes na Rede Pública e da área de Pesquisa, em geral.

 A partir do dia 6 de março, às 5as.feiras, às 20 horas, na sede da AME-SP, haverá reuniões de médicos e profissionais da área de saúde para montar o dossiê de propostas a serem apresentadas nos dois simpósios e posteriormente encaminhadas aos órgãos competentes.

 

SEDiC PARTICIPA DA FEIRA DO LIVRO DE STA.MARIA

            A Sociedade Espírita Divulgadora Cultural – SEDiC (Rua Mal.Deodoro, 471, fundos, Santa Maria, Rs.), vai participar da 30ª edição da Feira do Livro de Santa Maria, Rs., no período de 2 a 10 de maio próximos.

            O tradicional evento cultural será montado na Pça .Saldanha Marinho, centro da cidade, e a SEDic participará com uma banca colocando à disposição do público interessado mais de 700 títulos espíritas.

            Exemplares do jornal Opinião, a pedido da SEDiC foram remetidos para distribuição gratuita aos interessados que poderão, depois, encaminhar seus pedidos de assinatura para continuarem recebendo mensalmente este periódico.  

 

Opinião em Tópicos

Milton R. Medran Moreira

 

Clima de Guerra

Saímos, minha mulher e eu, do Brasil na Quarta-feira de Cinzas rumo a Porto Rico, onde fui participar do II Simpósio Kardeciano del Leste, promovido pelo Instituto Kardeciano Francisco Simonet. O Carnaval mal tinha terminado e, durante sua realização, o crime organizado que, dias antes, pusera mais uma vez o Rio em polvorosa, havia dado uma trégua. Sempre se soube que há uma conexão entre Escolas de Samba e Jogo do Bicho, no Rio de Janeiro. Não é difícil também conectar Jogo do Bicho com Tráfico de Drogas e este com o Crime Organizado, que está tornando insuportável a vida do carioca. Por aí a trégua é compreensível.

Deixamos, pois, o Brasil num período que correspondeu a uma breve interrupção dessa verdadeira guerra urbana que deteriora a vida de nossas grandes cidades, especialmente aquela que nos acostumamos a chamar de Maravilhosa. Mas, o mundo estava às vésperas de uma outra guerra, do tipo convencional, que, àquela altura, já estabelecera, nos vôos internacionais, especialmente de Companhias norte-americanas, uma verdadeira neurose de segurança. No embarque, à entrada do avião, passamos por uma revista onde até os sapatos nos fizeram tirar e onde alguns livros que eu levava em minha bagagem de mão foram esmiuçadamente revistados. Um exemplar de O Livro dos Espíritos em espanhol que levava comigo, foi cuidadosamente examinado. Poderia haver um estilete escondido em suas páginas ou alguma embalagem contendo doses de armas químicos ou  biológicas.

Porto Rico

Estado Livre e Associado (aos EEUU), como se define constitucionalmente, Porto Rico tem características que nenhuma nação latino-americana possui. Se em comum com outras, tem a lhe banhar as costas as águas incrivelmente azuis e tépidas do Caribe e do Atlântico, diferentemente delas orgulha-se de uma estrutura social, onde não há lugar para a fome e para a miséria e onde os índices de criminalidade são pouco expressivos. Sim, há desempregados. Mas, o generoso “Big Brother” se encarrega deles. Dá-lhes apartamento para morar e vales que lhe garantem a aquisição de alimentos, roupas e medicamentos. Materialmente, todos vivem com dignidade.

Em contrapartida, nos dias em que lá estive, falava-se que cerca de 10.000 jovens porto-riquenhos já estavam estacionados no Kwait, prontos para matar ou morrer, que esta é a lei da guerra. A maioria das pessoas que vivem naquela chamada “Isla del Encanto” têm filhos ou parentes próximos servindo nas Forças Armadas norte-americanas. Não sei qual a angústia maior: se a de um pai ou de uma mãe brasileiros que, à noite, vêem seus filhos irem a uma boate ou um restaurante, podendo no percurso ser assaltados, roubados ou seqüestrados, ou dos pais porto-riquenhos cujos filhos pertencem a um Exército que, quando não está em guerra está em prontidão para algum conflito que pode estourar a qualquer momento.

Compaixão

No nosso retorno, nova e vexatória revista feita por um funcionário norte-americano no aeroporto de Miami. De volta ao Brasil, as notícias da guerra em todos os jornais. Da nossa guerra urbana que reacendera com o assassinato de um Juiz de Direito de Presidente Prudente, logo seguida de outro em Vila Velha. O crime organizado mostrando sua força, impondo sua lei iníqua que, pouco a pouco, faz do Estado de Direito uma ficção que se esfuma ante a barbárie do crime com espantosa competência de auto-organização. E da guerra convencional que estourava, partindo do Kwait, (onde estavam os filhos de tanta gente com quem conversáramos naqueles dias), rumo à velha Mesopotâmia, berço da civilização do mundo, prestes a ser arrasada pelos mísseis e armas inteligentes contra ela lançados.

Retorno, assim, tomado de um profundo sentimento de compaixão por um mundo que, nós, espíritas, classificamos como “de provas e expiações”, mas que sempre sonhamos ver, num breve tempo, promovido a um planeta de “regeneração”. Um mundo, onde a única grande potência econômica ainda existente arvora-se o direito de premiar com uma vida materialmente digna, fazendo disso um privilégio, quem concordar com sua lógica da guerra. Um mundo onde, em contrapartida, um número cada vez maior de países que se negam a adotar essa lógica, marginalizam-se na deterioração social que gera a fome, a miséria, a corrupção, o crime organizado, a indignidade, enfim.

Opinião Pública

Às vésperas da guerra, editorial de importante jornal norte-americano reconhecia a existência de uma outra força que, somente ela, poderia rivalizar com a única potência internacional deste início de século: a opinião pública mundial. E esta tem sido eloqüente. Em todo o mundo, mesmo naqueles países cujos governos apoiaram a guerra, o povo foi às ruas para exigir a paz. O maravilhoso de nosso tempo é que se criou uma potente rede pela paz que pode, sim, fazer um contraponto eficiente à lógica da guerra. Por enquanto, os Senhores da Guerra são capazes de impor seu comando, mesmo contra a vontade de seus cidadãos e sob a expressa condenação da ONU, guardiã maior do Direito Internacional Público e dos anseios das sociedades modernas por uma ordem internacional justa e civilizada. Mas, podemos estar certos de que ninguém mais faz a guerra impunemente. Esse ente consciente, que cresce em força e em importância, chamado opinião pública é a expressão concreta e eloqüente de que, mesmo sob o aparente caos, vige a Lei do Progresso, conduzindo a estágios mais avançados de Justiça e de Amor.

 

Enfoque

 

AINDA A TEOLOGIA ESPIRITA

 

            Opinião publicou, como matéria de capa, em sua edição de março, opiniões de intelectuais espíritas sobre a anunciada criação de um curso superior de Teologia Espírita, em Curitiba. Dentre os espíritas consultados estava também o psicólogo e escritor Jaci Regis, de Santos, SP., cujo depoimento não nos chegou a tempo de ser editado na edição passada. Por isso, reproduzimos, agora, sua opinião:

 

“A intenção de criar uma teologia espírita  soa como um epitáfio do pensamento kardecista.

É difícil pensar, no lídimo sentido do pensamento de Allan Kardec, a existência de alguma coisa como uma teologia espírita. Como seria, que objeto teria, como se organizaria e que serviços prestaria à doutrina? Uma  teologia espírita é totalmente inadequada  ao sentido dado à doutrina pelo seu fundador..

Todavia, a idéia de   uma teologia  espírita surge em  decorrência da religião espírita.

Isso porque a religião espírita, não é kardecista. Ela é, sobretudo roustainguista.

Não se trata de uma condenação do roustainguismo. Mas de uma constatação.

O pensamento kardecista de modo algum é místico ou cristolatra.

A Teologia é uma tentativa de compreender os desígnios da Deus, através da leitura e interpretação das escrituras. Mas recentemente o termo foi usado politicamente, como na Teologia da Libertação, facção católico-marxista que tentou empolgar o catolicismo e foi liquidada pela ação do Vaticano.

J.. Herculano Pires, em sua obra  Curso Dinâmico de Espiritismo, comentando  sobre a morte de Deus, escreve : “Quem na verdade estava agonizando, e continua em lenta agonia, sustentada por milhões de seus beneficiários do profissionalismo religioso, era a generosa e sabidíssima senhora chamada de Teologia. Essa pretensiosa dama de certezas absoluta e irrevogáveis estava em estado de coma. Mas continua resistindo às tentativas impiedosas da morte.

A tentativa de ressuscita-la aparece agora no movimento espírita.”

Jaci Regisjaciregis@uol.com.br

 

Jaci Regis: “A idéia da teologia espírita surge da religião espírita, que não é kardecista, é, sobretudo, roustainguista”.

 

Opinião do Leitor

 

Chico Xavier, correntes e simpatias

Quando Chico Xavier estava encarnado, muitas pessoas abusavam da sua bondade e paciência, inventando que ele disse isso ou aquilo, em todos os tipos de assunto. Alguns disseram que ouviram da boca do Chico que André Luís foi Osvaldo Cruz. Outros juram que ele disse que André Luís foi Carlos Chagas, o que denota que não foi nenhum dos dois, pois nem a biografia do Osvaldo, nem do Carlos, combinam com a de André Luís, a não ser no ponto em que os três foram médicos. Mesmo assim, os dois primeiros foram sanitaristas e André, pelas suas informações, foi clínico geral.

Inventaram, também, uma receita para emagrecer. A dieta do Xico (você não enxergou mal, é mesmo Xico com X). Consistia num punhadinho de arroz cozido, que tinha que se tirar tantos grãos quanto fossem os quilos que se queria emagrecer. Depois deveria publicá-la num jornal.

Francisco Cândido Xavier desencarnou e começaram a aparecer mensagens atribuídas a ele dizendo que passaria pelas nossas casas, antes de ir para Deus, e levaria os nossos males. Junto vem a advertência para não quebrar a corrente e passar para nove pessoas. Santa ignorância.

Infelizmente no meio espírita ilustrado também acontecem coisas parecidas. Há um livro circulando para dizer que Chico foi a reencarnação de Allan Kardec. Respeitamos a opinião do Espírito e do médium, mas não existe consenso universal. As pessoas e espíritos que fazem tal afirmação foram influenciados por outros que já disseram antes. Consenso universal é espíritos ou pessoas falarem a mesma coisa sobre um assunto (se não nos detalhes, mas no principal) sem que se conheçam e saibam o que os outros falaram sobre o assunto.

Allan Kardec quando queria testar uma teoria ou informação transmitida por um espírito, escrevia dezenas de cartas para vários lugares do mundo, para médiuns e grupos espíritas questionarem seus guias sobre o tema. Recebida as respostas, comparava-as cuidadosamente agrupando as que coincidiam, para então se manifestar sobre o assunto.

No túmulo de Francisco Cândido Xavier uma editora espírita, juntamente com o filho do médium, colocaram a imagem de uma Nossa Senhora. No túmulo do Chico, em Uberaba, como no de Eurípedes Barsanulfo em Sacramento, há uma verdadeira romaria.

Infelizmente ainda estamos longe da verdade que liberta. Mesmo que digam, que importância tem isso? Somos de opinião que tem muita. Nossa Senhora disto ou daquilo é criação humana. Há cerca de dois mil anos existiu na Galiléia uma mulher chamada Maria, espírito de grande evolução, mas humana, que não é mãe de Deus, mas de Jesus, nem teve um filho por obra e graça do Espírito Santo, mas de forma normal.

Se você receber uma dessas mensagens atribuídas ao Chico, com recomendação de não quebrar a corrente, mas passar para nove pessoas, não tenha dúvidas, quebre a corrente e diga à pessoa que aquilo não é Espiritismo verdadeiro. Se você receber pela Internet, não se limite a deletar, isto é muito cômodo e contribui para a manutenção desta anomalia. Devolva o e-mail esclarecendo a pessoa.

Amilcar Del Chiaro Filho - Amilcarfilho@terra.com.br – Guarulhos, SP.

 

           Ante a Guerra

Temos acompanhado, apreensivos, a ameaça de uma nova Guerra que paira sobre a humanidade, que poderá envolver vários países. Ao lado da enorme intransigência que segue de perto o poder temporal dos homens, percebe-se a infinita gama de manifestações contrárias ao armamento e ao envolvimento bélico e em defesa da paz. Paz que começa no próprio ser, a paz interior, que continua nos ambientes em que estagiamos, a paz com o outro, até alcançar nossa maior aspiração: a paz no mundo.

A filosofia espírita é bem clara quanto às possíveis causas dos conflitos entre seres e nações: a permanência do egoísmo e do orgulho, chagas espirituais, que direcionam pensamentos, palavras e ações de espíritos que ainda militam nos graus iniciais do desenvolvimento moral. Tais fundamentos representam, na prática, o desprezo e o desrespeito pelo outro, pela sua vida, suas idéias, seus bens, em completa afronta aos princípios de igualdade, liberdade e fraternidade que têm motivado as criaturas lúcidas e de boa vontade de todos os tempos na execução do processo de progressão individual e social que desemboca em nossos dias.

Quanto à destruição no planeta, temos a aferir que para a vida material, com a redução das condições de habitabilidade na Terra em conseqüência de funestas ações humanas, representará a perda de oportunidades de melhorias nas condições de vida da humanidade. Uma hecatombe não destrói a individualidade espiritual, mas propicia sofrimentos, dores, mutilações, perdas de entes queridos e muitas lágrimas.

Solidariamente a nossos irmãos de outros países, somos contra a adoção de medidas violentas, que ceifam milhares de vidas, muitas vezes motivadas pela ganância desenfreada e pela ânsia da exploração e do domínio.

Neste sentido, a Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (ABRADE), através deste termo, vem manifestar seu apoio ao Movimento pela Paz e Contra a Guerra, expressando seu repúdio à agressão ao mais importante e fundamental direito da criatura humana: o direito à vida.

Assim, a ABRADE se engaja aos demais movimentos sociais, nacionais e internacionais em favor da Paz e Contra a Guerra, seja subscrevendo manifestos, seja demonstrando o seu pensamento sobre as conseqüências de um conflito desta natureza para todas as pessoas que participam deste momento da história.

Gezsler Carlos West - abrade@abrade.com.brpresidente da ABRADE – Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo. Recife –PE.