O Amor, a Fé e a Dor - Dr Fiorini
 

“Para mim foi a dor” - A cirurgia que mudou a minha vida - 06/05/1997

Tudo começou quando num determinado dia tive a primeira hemorragia abdominal, a princípio não me preocupei pois não senti dores e equivocadamente pensei que fosse alguma coisa que havia ingerido.

            Após realizar inúmeros exames médicos, tomografias e radiografias desagradáveis, o resultado diagnosticou - “lesão polipóide de cólon descendente e lesão ulcerada infiltrativa de cólon ascendente displasia de cólon”, em suma somente uma cirurgia com retirada total do intestino grosso poderia salvar minha vida.

            Diante dessa triste situação perguntei ao médico.

            -  Doutor quanto tempo de vida eu tenho?

               Ele me respondeu:

-  Se você não fizer a cirurgia o quanto antes apenas três.

              Percebi que teria que correr contra o tempo e também encontrar o melhor médico do Brasil ou do mundo, especialista em gastroenterologia.

            Dr. Walter Henrique Pinotti, professor catedrático da Universidade de São Paulo (USP) e do Hospital de Clínicas, foi o nome indicado. Já havia realizado milhares de cirurgias deste tipo e sobretudo de pessoas importantes como certas personalidades políticas.

            Não perdi tempo, estava decidido a procurá-lo.

            Embarquei num ônibus com itinerário: Curitiba à São Paulo, na viajem aproveitei para apreciar as paisagens, talvez pensei, poderia ser a última delas.

            No consultório médico, a porta se abriu e defrontei-me com um homem maduro, calvo, de semblante agradável e confiável, sentado à sua confortante mesa, rodeada por livros e computadores, suas hábeis e grandes mãos seguravam meus exames e diagnósticos médicos.

            Em pé diante daquele renomado profissional da medicina, como se estivesse recebendo uma sentença de morte por um Egrégio Tribunal, ele disse:

            -  Eu vou te operar depois de amanhã, às 7h no Hospital das Clínicas, esteja pronto.

 

No Hospital

 

            Fui encaminhado para a Ala de Gastroenterologia, após varias horas de “turnê” naquele enorme hospital, o qual mais parecia uma cidade do que Casa de Saúde, aliás não é para menos, trata-se do maior Hospital da América Latina.

            O dia passou-se normal, as enfermeiras e médicos se revezavam em visitas no meu quarto e tudo era cautelosamente anotado naquelas pranchetas, registrando-se assim toda minha vida em algumas folhas de papel.

            À noite meu corpo era raspado, o que na medicina chama-se fazer tricotomia, não comi nada, exceto uma rala sopa, talvez de caldo de galinha, pois no dia seguinte às 7 horas seria encaminhado ao Centro Cirúrgico.

            Amanheceu o dia e impreterivelmente às sete a enfermeira me acordou e disse:

-          Chegou a hora, vamos, tudo vai correr bem, tenha fé em Deus.

            Presente no quarto encontrava-se minha mãe, então subi naquela maca alva, tão branca que reluzia a cor da paz e com toda ternura do meu coração despedi-me com um beijo na face de minha querida mãe.

            Enquanto era retirado do quarto eu a observava como se fosse a última despedida.

            Os meus olhos observavam atentamente o teto e as lâmpadas fluorescentes do enorme corredor que me levaria ao Centro Cirúrgico.

                Nessa pequena viajem, em questão de segundos um filme desenrolou em minhas telas mentais. O ator principal era eu mesmo, embora mais jovem e as protagonistas eram mulheres de vida noturna, rodeadas de luzes coloridas e cálices de diferentes sabores etílicos.

                Questionei a mim mesmo, e agora se eu morrer, o que fiz de bom nesses quarenta anos de vida.

                Jesus Cristo, perdoe-me, dê-me outra chance.

 

No Centro Cirúrgico

 

            O anestesiologista apareceu de súbito como num passe de mágica, em meu braço foi localizada veia para me levar a um longo sono.

            O médico me perguntou?

            -  O que você faz na vida?

            -  Respondi: sou Delegado de Polícia.

            -  Então você é um homem corajoso, e tem uma grande missão em sua vida, muitas pessoas dependem de você, você terá muito ainda o que fazer.

                A vista tornou-se turva e imediatamente “apaguei” porém lembro-me apesar da inconsciência, que me encontrava num lugar de total escuridão, num ambiente inóspito e gelado.

            Oito horas se passaram naquela mesa de aço, quando de repente fui chamado pelo meu primeiro nome, não me lembro mas quando abri os olhos, agarrei o jovem médico residente e implorei para me tirar daquela escuridão.

            Ele friamente respondeu, você está na UTI, e tudo não passa do efeito da anestesia (morfina).

            Então dei graças a Deus de sair daquela escuridão e ter passado pela cirurgia.

 

Na UTI

 

            Foi a noite mais longa de minha vida, acompanhei a cada segundo do relógio que se posicionava a minha frente, foi uma eternidade, ao meu lado esquerdo se encontrava num leito uma senhora mestiça calada e ao meu lado direito um jovem rapaz de 16 anos, chamado Marcelo acompanhado de seu pai.

            Durante a madrugada fui acometido de horríveis dores na região da barriga, nunca tive sensação igual na vida eram insuportáveis, então implorei àquele residente que necessitava mais de sedativo na veia.

            Ele a contra gosto dizia que não poderia porque o sedativo era um derivado de morfina chamado dolantina e que tinha hora certa para aplicá-lo.

            Eu supliquei, Doutor se o senhor é cristão, não interessa as horas, não interessa se é morfina eu necessito deste remédio. A agulha penetrou o catéter interligado a minha veia, e o sangue ferveu, senti um torpor, esqueci a dor e pude adormecer.

            Na manhã seguinte, deparei com o corpo do jovem Marcelo, sendo colocado dentro de um saco plástico preto, ele havia falecido durante o momento em que eu agonizava em dores.

            Lembro-me que seu pai que estava a seu lado por inúmeras vezes me socorreu, embora seu filho estivesse morrendo.

            Novamente às 7 horas, da manhã seguinte um enfermeiro de cor negra, forte disse-me:

            -  E aí meu, levanta-se daí, chega de descanso, chegou a hora do banho.

            -  Eu atônito respondi, como, você é louco, mal posso me virar neste leito.

            Ele me levantou, deitei-me em outra maca e fiquei nu na frente de todo mundo, principalmente das estudantes de medicina que ali estagiaram. Senti-me complemente humilhado, sendo lavado através de uma bacia, pano água e sabão e somente ali percebi a dimensão da minha cirurgia, quando tiraram as ataduras da minha barriga, um corte nada mais nada menos que trinta centímetros, mal deu para contar o número de pontos.

 

Sala de recuperação

 

            -  Bom dia. exclamou o Professor Pinotti, acompanhado de um batalhão de médicos, você está se recuperando muito bem, como está se sentindo?

                -  Bem, apesar das dores, sede e diarréias.

            -  É assim mesmo, agora você começa a segunda etapa do tratamento, aos poucos o seu organismo vai se adaptando, embora sem intestino, a natureza humana é sabia.

            -  Eu nunca mais esqueci essa frase “A natureza humana é sabia”.

            Os dias foram se passando e numa noite acordei e vi um homem deitado no leito de acompanhante, então perguntei quem é você?

            Ele me respondeu:

            -  Sou o irmão mais velho o “Luiz” estou aqui para cuidar de você.

            E eu perguntei.

            -  Quem sou eu e aonde eu estou?

            -  Você é meu irmão caçula o João e está aqui porque foi submetido a uma cirurgia “Colectomia total, mas já está tudo bem e logo vai embora para casa.

                Percebi o que o estresse poderia fazer com uma mente humana.

 

No sétimo dia

 

            Uma jovem médica estagiária me retira os pontos da barriga, então eu brinquei com ela e disse-lhe.

            - Uma moça bonita como você e doutoranda em medicina pela USP deve chover bastante namorados.

            Ela apenas respondeu-me com um belo sorriso.

            Então eu me atrevi ir mais longe, pois afinal sempre fui um “garanhão” e fiz uma afirmação para ela.

            – O dia que eu ficar bom eu vou convidá-la para ir ao cinema comigo, você aceita?

            Ela ainda sorrindo disse:

            - “Eu não quero vê-lo nunca mais neste Hospital.

            Eu calei-me, sem graça mas os enfermeiros para “quebrar o gelo” disseram:

            -  Nós conhecemos um baile legal e você vai conosco...

 

 

Décimo e último dia (dia da alta hospitalar)

 

            Era uma belíssima manhã, o carro de meus familiares deixavam para trás o imenso prédio do Hospital das Clínicas de São Paulo, aos poucos eu contemplava aquela bela manhã ensolarada, as árvores eram mais belas e verdes, refletindo a cor da esperança, o céu cada vez mais azul, pela primeira vez em minha vida pude contemplar essa paisagem, a vemos todos os dias, e no entanto não a percebemos.

            Muito obrigado meu Deus, muito obrigado Dr. Pinotti, por salvar a minha vida e fazer ver o que antes os meus olhos não viam, obrigado porque essa cirurgia mudou a minha vida.

 

João Alberto Fiorini de Oliveira

 

Curitiba, 22 de outubro de 2001